segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

FOME

 
 
Quando ouço um homem dizer que tem que pedir uns ovos, um pão e poucas outras coisas à família porque a empresa em que trabalha vai fechar e não lhe paga o que lhe deve e que essa é a única refeição que come durante o dia…

Quando ouço outro homem dizer, de cara baixa, que tem a seu cargo o filho e os netos a quem tem que garantir uma merenda para levarem para a escola, quando a voz desse homem se embarga afirmando ser capaz de explicar ao filho que já quase não há dinheiro para nada, mas não conseguir dizer às crianças que vai ter de lhes retirar os poucos mimos que já têm…

E quando ouço ainda um terceiro homem dizer que é viúvo com três filhos e que a renda da casa está por pagar há três meses …

Quando sei que estes três homens e as suas famílias se multiplicam por muitos mais e vão continuar a multiplicar-se por mais ainda…

Recuso-me a entrar em lugares-comuns, mas algum grito tenho que dar. E o que faço a seguir? Deixo de escrever? É que perdi completamente a vontade.

E todos aqueles que afirmam que estas medidas draconianas são necessárias, senão…mas, para estes e muitos outros já não é senão nada. Já lá chegaram. Que mais condicionantes pode haver para quem já não come como gente, já não vive como gente, já não consegue olhar nos olhos da gente que ainda comemos o que precisamos de comer?

E, ainda por cima, têm vergonha de nos olhar nos olhos, como se tivessem cometido algum crime.

Não sei porque é que me veio à cabeça a Natália Correia. Talvez porque só assim, daquela forma histriónica que era a dela, se possa, se deva gritar contra a fome. Que outra maneira há de expressar isto? E o que é isto?

Não me importa a prosa. É olhar para aquela gente e, embora, vendo-os iguais a nós, não os vemos como nós. Eles estão acossados pela vida, foram marcados a ferro quente, tratados como gado, não sabem o que vai ser o futuro, mesmo o mais próximo.

E eu o que faço, que sou da mesma humanidade mas ainda não estou como eles? Ainda posso manter a minha alimentação, a maior parte dos meus hábitos.

Nunca tive fome, nem me faltaram nunca as refeições necessárias. Mas posso imaginar como me sentiria.

Nunca tive filhos, nem me faltou que lhes dar de comer. Mas posso imaginar como seria vê-los com fome.

E, se eu posso imaginar, como será a realidade?

Já não gosto das palavras que se usaram durante décadas. Estão coçadas, gastas. Que outras há que espelhem a minha desolação?

Só o silêncio mas o silêncio agora não chega.

Vou inventar as palavras que não me vêm neste momento. E, só depois, volto a escrever.
 
Augusta Clara de Matos in Estrolabio

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Chuva vermelha pode conter células extraterrestres

Chuva vermelha de Kerala (Crédito: Godfrey Louis)


Em 2001, os habitantes de Kerala, no sul da Índia, acostumaram-se a uma chuva de cor vermelha que caiu durante dois meses nas ruas da sua cidade. Godfrey Louis, físico da Universidade de Cochin de Ciência e Tecnologia interessou-se pelo fenómeno e recolheu várias amostras do que parecia um vulgar caso de contaminação.

Godfrey Louis, investigador


Sob o microscópio observou que a água não tinha pó nem areia mas continha algo com muito mais impacto: estava repleta de células vermelhas, muito parecidas aos dos micróbios da Terra, mas sem provas de DNA.     





O investigador da universidade indiana sugeriu que as células poderiam ser extraterrestres, uma ideia que despertou sorrisos de cepticismo mas recebeu a aprovação para ser publicada na revista científica Astrophysics and Space Science em 2006.

                                                                                                              
                                                     Godfrey Louis, investigador                                                                                                                                                                                                                                 
Recentemente, a equipa de Louis afirma algo ainda mais inquietante: Estas células, que acreditam ter origem noutro mundo, estão a reproduzir-se.Godfrey Louis considerou que as células descobertas na água da chuva não poderiam ser terrestres porque não encontraram provas de DNA.Os glóbulos vermelhos seriam ainda uma possibilidade mas deveriam ter sido destruídos em contacto com a água da chuva.Numa extraordinária explicação, o investigador sugeriu a possibilidade de um cometa ter-se desintegrado na atmosfera superior e salpicado as nuvens quando estas flutuavam sobre a Terra, o que explicava a chuva vermelha que surpreendeu a Índia em 2001.

Os investigadores recolheram ainda informações na região acerca de um ruído semelhante ao de um objecto que superava a barreira do som, o qual poderia ter sido provocado pela tal rocha espacial a desintegrar-se.


Chandra Wickramasinghe
Desde então, Louis continuou a estudar estas células, com a colaboração de uma equipa internacional que inclui Chandra Wickramasinghe.



O investigador da Universidade de Cardiff, no Reino Unido, e um dos principais defensores da teoria da panspermia, segundo a qual a vida na Terra, como noutros mundos, foi semeada através do impacto de um cometa ou asteróide sugerindo que somos todos extraterrestres.

Células reproduzem-se a altas temperaturas

Segundo a Technology Review, publicada pelo  MIT, estes investigadores asseguram que as células estão a reproduzir-se a temperaturas de 121 graus mas expostas à temperatura ambiente são inertes. Isto é extremamente raro.

As esporas de alguns extremófilos podem sobreviver a este tipo de temperaturas e reproduzir-se a temperaturas menores. Contudo, nada do que é conhecido se comporta deste modo a estas temperaturas.

Importa realçar que apesar deste comportamento inesperado isto não implica à partida que as células sejam extraterrestres. Wickramasinghe não resiste a assinalar uma explicação.
                                           
Constelação de Monoceros
       Examinaram a forma como brilham quando bombardeadas com luz e dizem que são notavelmente parecidos a vários espectros de emissão não explicados em diferentes partes da galáxia.

Um destes lugares é o Rectângulo Vermelho, uma nuvem de gás e pó perto de uma estrela jovem na constelação de Monoceros. Ainda que não se possa admitir semelhante teoria sem mais provas, continua a ser um fascinante mistério.

in: Ciência Hoje

                                                                                             

sábado, 14 de agosto de 2010

Onda de calor é a mais grave do milénio

Incêndios na Rússia a chegar a zonas radioactivas e Portugal com pouca qualidade de ar   

A Rússia encontra-se perante uma situação de bloqueio, a nível climatérico; ou seja, o anticiclone que se formou sobre o país mostra-se quase estacionário e, associado a massas de ar quente, torna-se favorável a fortes temperaturas, ar muito seco e a insolações. A situação tem sido excepcionalmente afectada pelos grandes incêndios que lavram desde Julho passado e que se aproximam de áreas contaminadas pela explosão da central nuclear de Chernobyl. O país já está de prevenção e teme a dispersão de partículas radioactivas.
Em Moscovo, verificam-se temperaturas muito acima da normalidade sazonal e a taxa de mortalidade diária já dobrou. Todos os dias morrem 360 a 380 pessoas; agora, a média está nos 700, segundo avançou o chefe do departamento de saúde de Moscovo a vários meios de comunicação. Foi decretado o estado de emergência nas florestas e parques da cidade de Ozersk, a região de Briansk e a fronteira da Bielorrússia e Ucrânia já estão a ser afectadas.

O fumo proveniente da vegetação incendiada emana grande quantidade de monóxido de carbono, micro-partículas nocivas e deixa o índice de oxigénio do ar em baixa. As principais repercussões são dores de cabeça, irritação nos olhos, nariz e garganta, náuseas, problemas pulmonares e cardiovasculares. A exposição prolongada enfraquece o sistema imunológico.
A questão da possível libertação de elementos radioactivos requer medidas urgentes para proteger a população e territórios, mas ainda não são conhecidas situações catastróficas. Até agora, já foram reportados quase 550 incêndios florestais. Entretanto, o país foi brindado com alguma pluviosidade, mas não a suficiente.
 
Menos qualidade no ar
Em Portugal, os incêndios que têm fustigado o país e as altas temperaturas estão, igualmente, a propiciar a existência no ar de mais partículas nocivas à saúde. No Porto, já se confirma – segundo disse o pneumologista António Jorge Ferreira, a uma rádio nacional – que a qualidade do ar diminuiu e os químicos resultantes das combustões, associados às altas temperaturas, podem desencadear uma série de patologias respiratórias.

Os especialistas recomendam, a quem tem mais dificuldades respiratórias, ficar mais tempo em casa. Os grupos de maior risco são os idosos, os doentes crónicos, sobretudo os com dificuldades respiratórias, e as crianças. A Autoridade Nacional de Protecção Civil regista hoje 58 incêndios activos, em oito distritos do país e as altas temperaturas mantêm-se, apesar de já haver previsão de começarem a baixar na próxima semana.

Ondas de calor em regiões impensáveis, simultaneamente trombas de água tudo arrasam na China, Paquistão, Norte da Europa e nas ultimas horas aqui ao nosso lado, Espanha.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Islândia - erupção do vulcão Eyjafjallajokull

 
 
O curioso nome Eyjafjallajokull é o resultado da justa posição dos três substantivos: eyja, fjalla e jökull, que significam, respectivamente, ilha, montanha e geleira, ou, numa tradução livre, “geleira da montanha da ilha”. Actualmente famosa, a pequena cadeia de Eyjafjallajokull antes passava despercebida por viver à sombra da imponente geleira de Mýrdalsjökull, que sempre foi conhecida por ser uma das maiores do mundo.
 
Geologicamente, a Islândia é bastante nova, mas, para os padrões humanos de contagem de tempo, não. Segundo historiadores, a ocupação do território começou no ano de 874, pelos primeiros imigrantes noruegueses e irlandeses, que se espalharam por diversas partes do arquipélago formando povoados como o de  Eyjafjöllum – que pode ser traduzido como “embaixo do Eyjafjalls”. Situado na base do vulcão, próximo à cordilheira, seus moradores estão acostumados com a intensa actividade sísmica da área, mas não contavam com as erupções, já que as últimas aconteceram entre 1821 e 1823. Esse intervalo de 187 anos é suficiente para os geólogos classificarem o Eyjafjallajokull como uma área de intensa actividade vulcânica.
As fotos que vemos aqui foram tiradas a 30km da cratera. Não era permitida maior proximidade, mas, mesmo assim, expressam o poder de devastação das erupções. A quantidade de cinzas lançadas no ar é impressionante.



Os vulcões estão significativamente presentes no folclore islandês. Personagens e deuses ligados às crateras permeiam o imaginário popular há muitos séculos e estão mais vivos do que nunca, já que estas últimas actividades são as mais intensas desde a última Era Glacial.
Na cultura nórdica, as crateras representam a morada de entidades superiores ou até mesmo um meio de comunicação destas com os humanos. Sagas islandesas narram histórias de vilas que funcionavam em detrimento dos majestosos vulcões, e as erupções eram consideradas um castigo: como se a natureza se mostrasse imponente, sempre superior à acção do homem. 



Nada muito diferente de hoje, visto o caos na aviação civil e a repercussão que os fenómenos naturais causam nas ordinárias actividades do mundo globalizado.

in, Obvious

domingo, 27 de junho de 2010

A Máquina do Tempo

 Chegaram-nos esta semana notícias sobre a cronologia do antigo Egipto. As datas que se encontraram não foram estabelecidas com base em documentos nem em monumentos. Foram obtidas através de restos de objectos muito mais prosaicos: plantas.
Num artigo publicado na "Science", um grupo de investigadores de Inglaterra, França, Áustria e Israel obteve datações de sementes, têxteis e frutos associados a diversos reinados do antigo Egipto. 

No total, foram analisadas 211 amostras provenientes de vários museus. Os resultados confirmaram algumas hipóteses estabelecidas pelos historiadores e questionaram outras. As maiores novidades referem-se ao chamado Reino Antigo, em que se encontraram datas anteriores às anteriormente assumidas. Sendo assim, o Novo Reino, que anteriormente se pensava ter começado cerca de 1500 anos a.C., tem agora data estimada de início entre 1720 e 1640 a.C.
A leitura do artigo da "Science" e do comentário que aparece na mesma revista (p. 1489), impressiona por mostrar o papel que a física e a geologia têm para a arqueologia moderna. As datas são discutidas relacionando os vestígios da erupção de Santorini (c. 1600 a.C.), cronologias diversas de artefactos em Creta e datações de restos orgânicos através do carbono 14.

Esta última técnica foi desenvolvida pelo químico norte-americano Willard Libby, que a propôs em 1949. Como se sabe, o carbono tem vários isótopos. Este elemento, que tem sempre seis protões no seu núcleo e portanto seis electrões em órbita, pode ter um número diverso de neutrões. Recebe um número conforme o total de protões e neutrões que possui. Existem dois isótopos estáveis, o carbono 12 e o 13, e um instável, o carbono 14. Este último desintegra-se constantemente, gerando azoto, um electrão e um antineutrino.
Os isótopos estáveis são muito abundantes, enquanto do radioactivo se registam apenas vestígios. No entanto, apesar de o carbono 14 ser instável, a fracção deste isótopo na atmosfera tem permanecido relativamente constante, dada a sua criação permanente por acção de raios cósmicos.
Os seres vivos incorporam constantemente o carbono e, portanto, têm uma fracção de carbono 14 derivada da que se encontra na atmosfera. Quando morrem, contudo, o ciclo interrompe-se e o isótopo radioactivo vai decaindo a uma taxa constante. É um fenómeno físico muito curioso. Cada átomo radioactivo tem, em cada intervalo de tempo, uma probabilidade determinada de se desintegrar. 


Nunca se sabe o que vai acontecer a cada átomo em particular. Mas, tomando um número elevado de átomos, como o que existe em qualquer resto visível de planta, mesmo que diminuto, o decaimento segue uma lei muito regular. Em cada 5730 anos, metade dos átomos de carbono 14 desintegra-se. De onde resulta que, medindo a percentagem desse isótopo radioactivo que existe em cada amostra de carbono, pode-se estimar há quantos anos o animal ou a planta deixou de absorver carbono da atmosfera, ou seja, há quantos anos morreu.
Segundo o que agora se descobriu, as plantas dos faraós do antigo reino morreram há mais anos do que anteriormente se pensava.
Nuno Crato, in Expresso de 19 de Junho de 2010

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Descoberto planeta mais jovem fora do Sistema Solar


Estrela de Beta Pictoris b tem 12 milhões de anos
A equipa de astrónomos utilizou o Very Large Telescope, do Observatório Europeu do Sul, no Chile, para acompanhar o movimento do exoplaneta Beta Pictoris b, um gigante com nove vezes a massa de Júpiter.

O sol do planeta, uma estrela branca chamada Beta Pictoris, é também a mais nova estrela conhecida a abrigar um planeta.



Ilustração do planeta gigante Beta Pictoris b (Crédito: L. Calçada, ESO)
Foi encontrado, através de observação directa, o planeta mais jovem fora do Sistema Solar.

A Beta Pictoris tem apenas 12 milhões de anos, contra os 4,5 mil milhões de anos do Sol do nosso Sistema Solar. Situa-se a 60 anos-luz da Terra, na constelação Pictor.

A descoberta, publicada na Science, demonstra que os planetas gigantes podem formar-se próximo das estrelas em períodos muito mais curtos do que se pensava.

Até hoje, foram encontrados 450 exoplanetas. Porém, Beta Pictoris b é um dos poucos a ter sido detectado por observação directa (sem o uso de medições indirectas, baseadas nas variações do brilho reflectido pelo planeta).

O mais recente exoplaneta descoberto pode ainda fornecer pistas sobre a formação de planetas gigantes como Júpiter.
in Ciência Hoje

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A Phoenix morreu




A agência espacial norte-americana, NASA, levou a cabo várias tentativas para recuperar o sinal da sonda Phoenix, mas já é oficial: a sonda morreu. A imagem partilhada pela Nasa mostra os painéis danificados pelo gelo polar. A fotografia de 2008, após a aterragem da Phoenix, mostram outra perspectiva com os painéis solares a funcionar.
As condições rigorosas do inverno marciano – duas vezes mais longo do que na Terra – foram a principal causa para a sua deterioração. Contudo, já se previa que talvez não resistisse às condições atmosféricas.

A Phoenix aterrou em Marte, a 25 de Maio de 2008. Durante os cinco meses em que foi usada para explorar a superfície do planeta vermelho, encontrou evidências de água – o que permitiu escalar a hipótese de que haveria vida no planeta. A Nasa colocou um vídeo em homenagem à sonda que enviou à Terra imagens inéditas e ajudou a perceber melhor a região do pólo norte marciano.
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